27.9.09
"~
´Isso é outra história´
Mas essa história nunca é contada. Ninguém parte dela.
~
Falemos a partir das coisas."
J.L.Godard
lendas do ballet
segunda-feira
uma mulher ensaia ao piano o início de diversos adagios de mozart; um homem de idade aparenta plenitude.
a mãe quis saber; naquele dia, levou o filho.
- o senhor professor pode me dizer o que é isso?
nas pequeninas costas do menino estavam os cinco dedos da mão, em um roxo-degradê bem estampado.
- agora não, e se você não sair daqui imediatamente vai ficar com uma marca igualzinha...
terça-feira
o namorado de ana desiste em definitivo de namorar uma bailarina, mesmo que seu professor seja de orientação sexual etérea.
quarta-feira
ligia é aconselhada a depilar de forma a favorecer esteticamente as sombras do ecartê.
quinta-feira
felipe é flagrado com cerveja e condenado a ser mundano e barrigudo. passa a se esconder do mestre, todos os dias às seis da tarde, atrás do balcão do bar, ao reconhecer de vista e de longe os primeiros sinais de seu andar.
sexta-feira
o homem de idade leva uma vareta para melhorar os ensinamentos da coluna do pequeno joaquim; mais uma vez flagra e arrasta ana pelo braço do carro no e do namorado matando aula; proibe ligia que use meias escuras e finje que não vê felipe pela quinta vez sentado no bar, tomando cerveja, esta semana.
Postado por Pérola Simões
12.11.06
"Nós nos equilibramos, por isso passamos do silêncio para as palavras. Oscilamos entre os dois, porque esse é o movimento da vida. No dia-a-dia, alguém passa para uma vida que chamamos de superior. O pensamento da vida. Mas esta vida pressupõe que alguém tenha matado o dia-a-dia, fundamental para a vida."
J. L. Godard
Postado por Pérola Simões
20.7.06
Esse texto eu descobri mais tarde que é para alguns rostos. Rostos que fizeram parte de um momento que eu chamo de brilho. Rostos que estão calados agora, mas que eu levo para sempre comigo.
Ao sorriso de Lucile, aos cigarros de Carlos, às saias de Sílvia Aparício, aos abraços de Álvaro Pedreira, às loucuras de David Muri, à ingenuidade bonita de Pan Ai, às piadas de Beatriz, à coincidência de Ramalho. Jean e seus livros, Jean e seus adesivos, Jean e sua música experimental, Jean e seus filmes trashes, Jean projecionista, Jean e Grizet. Jean e seu casaco azul, seu jeito que não se esquece. Seu carro sempre aberto, seu discurso anarquista, aquele monte de coisas no macarrão. Seu jeito de falar, de comer, de olhar e de não olhar. Seu jeito de não olhar. Sílvia descendo a Rabassa, Síliva e seus aspargos. Síliva nas ruas, nos cafés, Sílvia andando em cima do corrimão. Todos os rostos que conheci, todas as coisas. Todas as ruas, todos os cafés, os bancos de praça, o sorriso de Lucile, David, Sílvia, Álvaro, Ramalho, Jean, Carlos, Grizet. Às linhas do trem, enfim.
CARTELA: Si le ves a alguien el aliento de esse modo es como se le vieras el alma, y, claro, cuando le vez el alma a alguien te enamoras. (Juan José Millás)
Quanto nos lembramos de um momento com o tempo?
Quanto nos lembramos das pessoas? Da primeira impressão, o feio que ficou bonito e o bonito que ficou feio. Uma ou outra coisa que ouvimos, é assim como guardamos as caras... sempre caladas.
Mas é incrível como reconhecemos uma expressão. A memória embaça, as caras perdem linhas e contornos, mas existe uma coisa que não tem nome, não tem forma. E a isso eu chamo expressão. Quando eu digo que não confio em retrato é porque o momento registrado é tão irreal quanto o tempo e (se o tempo não pára) como existe o momento? O problema do retrato é que ele não é correspondido. Quem tira a foto não sai no momento.
Eu gostaria de saber onde anda aquele sorriso agora.
E você, como você gostaria de conhecer alguém?
Postado por Pérola Simões
11.6.06
Sempre virá. Odeio quando te enganas assim, girando entre as panelas. A vida é agora, aprende. O pó se acumula todos os dias sobre as emoções. Estende a tua pata para o Outro, delicadamente. Cata os piolhos do Outro. Deixa que catem os teus. Esmaga entre os dentes, engole. Fala-me do gosto.
O gosto é bom, eu te dizia. E não impede a asa, a seta disparada em direção a Hydrus, Eridanus. Mas primeiro prova da terra. Depois, voa. Não aprendeste com Ícaro?
Caio Fernando Abreu
Postado por Pérola Simões
20.5.06
"essa é a história da borboleta que se apaixonou por um soco." [michel melamed]
essa é uma história de amor contada por fragmentos, porque só assim eu pude escrever nas melhores companhias.
antes de mais nada, o início
"e quando um rapaz e uma moça dessas se encontram, seja por um momento ou por horas, tanto faz, mas por algum motivo, não importa, eles não querer se separar." [caio fernando abreu]
antes de tudo, o sentimento
"este é o menino de sal,
o menino de sal que pesa no
meu coração
em quem tanto desejei pregar
asas de amor e de anjo" [caio]
com o desejo mais comum de todas as mulheres que vêem a vida passar em um beijo
"se nós dois se empareasse, se juntim nós dois vivesse" [cordel do fogo encantado]
porque não podem ler o pensamento do padre e dos pais
"perdoai a quem nos tem ofendido"
para o godard, nós sempre acabamos perdoando. para mim, não é perdão, mas esquecimento.
como amar na pobreza, na doença...
... e até mesmo na falta de amor.
hã?
como gostar de desenhar sapatos quando eles não dizem nada além de constatar a ausência de pés.
a pia que caiu. vai ver não era para pôr os pés.
o que eu escrevo não invalida o que eu sinto. e vice-versa.
e os trechos de unna femme est unne femme
"émile e ângela: tudo vai dar errado porque eles se amam.
quer que eu fique? sim.
quer que eu vá embora? sim.
está aqui há muito tempo? não, há 27 anos.
o presente é a posse que nenhum mal te tira.
tudo foi dito, até que mudem as palavras." [godard]
nunca prometer adorar a vida inteira.
ter paixão e ter pudor. hã?
"o amor é um contato livre, que se inicia com uma faísca e pode terminar do mesmo modo." [isabel allende]
"perdoe a minha precariedade e as minhas tentativas inábeis, desajeitadas, de segurar a maçã no escuro. me queira bem." [caio]
"estendo as mãos para o além, mas os entendê-las vejo que não é aquilo que quero aquilo que desejo" [fernando pessoa]
mas newton tinha razão, a maçã madura caiu.
the end.
Postado por Pérola Simões
16.5.06
MULHER
Ninguém me insiste. Ninguém me insiste e isso é a maior prova de que ninguém está interessado em mim, mas passa por mim com um interesse próprio.
CARLETA 3: Le grand finale.
FADE OUT
Postado por Pérola Simões
10.5.06
e dos casulos saem lindas najas raivosas e com fome...
eu odeio as borboletas da barriga. odeio essas borboletas estúpidas que me descem aos ovários e me sobem à garganta mas eu não posso vê-las porque só descem até as pernas ou sobem só até a boca e do corpo não saem. são muito parecidas com serpentes venenosas - o veneno é minha úlcera que cresce a cada dia desse amor de borboletas.
como eu ia dizendo, eu odeio todas essas serpentes bonitas. como é que eu sei que elas são assim, bonitas? ora: elas vêm sempre que meu coração vê alguma coisa que eu gosto muito. muito muito muito. aí elas vêm e sacodem tudo o que eu comi mais cedo. na verdade, elas também correm quando eu penso. e, quando adejam, roubam todos os meus sentimentos.
Postado por Pérola Simões
27.4.06
meus olhos pecam sempre. meu corpo peca às vezes. bom é quando tudo peca ao mesmo tempo.
Postado por Pérola Simões
15.4.06
"Só eu sei
O gosto a cor
Que me traz"
e também
"e quase sempre eu penso em te deixar e
é só você chegar pra eu me esquecer de mim"
Tim Maia
Passo do Guanxuma, 26 de junho de 1998.
Maria Helena,
Eu nunca mais pensaria em mim enquanto eu visse a sua cara calma e doce, típica de alguém tentando realizar o impossível. Então eu quis, sei lá, abraçar você, mas você não tinha tempo para abraços. E eu desejei que abrisse uma fenda no céu, daquelas com luzes no meio das nuvens, saindo raios de todos os lados, feito um prisma, e que você então fosse sugada para, sei lá, o paraíso. Mesmo sem tempo para os abraços.
Eu estou vendo o dia clarear daqui de cima e tem uma casa que ainda está na noite. Daqui a pouco todo esse céu vai ser trocado e tudo será dia. E talvez duas pessoas tenham o triste hábito de se abraçar no bom-dia.
Um beijo, gosto de você. Não a amo, porque se pode amar um time de futebol, mas jamais rolar com ele feito gatinhos.
A.
"aqui troco de mão e começo a ordenar o caos"
Ana C.
Postado por Pérola Simões
5.2.06
ME BEIJA assassina quieta bonita de touca de máscara rabo com brinco perfume cecê de roupa sem roupa sapato meia em pé na mesa com raiva sem pé pudor lágrima bala argola riso bafo unha grande roída na ponta dos pés chiclete calça comprida saia bundalelê hippie segurando um poodle falando num celular rosa com pressa devagar boca aberta fechada dentada, mas de batom melado NÃO.
Postado por Pérola Simões