22.3.08
Em jogo à distância,
dialogo
Nos mais vastos pensamentos penitenciários
resta um grão de dúvida
Uma covarde alma moralista
Vive rapidamente para então morrer
[ ... lentamente...
"Vossa imaginação terá de quebrar tumultos para satisfazer as exigências de bilheteria"
As situações
Permanecem, e tem muitos olhos no mundo
Isolam-se por opção
Alguéns cujas máscaras se movem, ainda,
[por ritos de sabedoria
Aos jogadores,
Por Pérola do Amaral,
Alma 1:
- Você morre sempre na hora errada, não é, querida?
Alma 2:
- Se já descobriu o que é preciso fazer para morrer... não compreendo por que ainda escolhe viver...
3 Alminhas:
- É como um corpo a funcionar socialmente...
Cartela:
"SE TE ATIRASSES DO PRIMEIRO IMPULSO NÃO MORRERIAS INTEIRA"
Aparece a terceira alma.
Alma 3:
- Por que os deuses não me concederam a felicidade de amar verdadeiramente um ser que exista de forma menos sublime? Será por ser eu teimosa ao ponto de sucumbir, apenas, a um grande e impossível amor, que me desarranjaria a vida, mas que haveria de trazer-me tamanha felicidade, felicidade esta quase nunca sentida em toda minha vida? Ou será por estar eu fora do alcance de qualquer existência que não esbarre na minha por identificação, a fim de que nos mostremos, como espelhos, o que teríamos de fantástico a aproveitar, como só me poderia compreender alguém que me fosse idêntico?
Alma 1:
- Todos temos esse medo. HÁ momentos em que você realmente convence como idiota...
O Clássico é bonito, mas cuidado: tão vasto que por vezes nem chega a matar.
Cartela 2:
"EU QUERO SER EXATAMENTE ESTA FRESTA DA MINHA IMAGEM"
Bibliografias: IACS/UFF (Oficina de texto com Sebastião Votre), CAL (Tchekov, Shakespeare), antropofagias, Hesse, García Márquez, Caio F., Nelson, Oswald, Nietzsche.
Postado por Pérola do Amaral
20.4.07
"- De que sente medo?
Diga!
- De você, do seu egoísmo.
Da desolação de seus ideais.
Só fala de mesa e cama.
Não acredito no seu amor agressivo, pegajoso, maternal!
Não o quero!
Não me serve!
Não é amor, é embrutecimento."
(*La Doce Vita*, de F. Fellini)
- Mas Mirella me confundiria, porque me chamaria de louco se eu perguntasse qualquer coisa óbvia. Mas riria, lá no fundo, onde a gente vê a expressão de verdade, onde é impossível ser neutro, não ser nada.
Postado por Pérola do Amaral
12.11.06
"Nós nos equilibramos, por isso passamos do silêncio para as palavras. Oscilamos entre os dois, porque esse é o movimento da vida. No dia-a-dia, alguém passa para uma vida que chamamos de superior. O pensamento da vida. Mas esta vida pressupõe que alguém tenha matado o dia-a-dia, fundamental para a vida."
J. L. Godard
Postado por Pérola do Amaral
20.7.06
Esse texto eu descobri mais tarde que é para alguns rostos. Rostos que fizeram parte de um momento que eu chamo de brilho. Rostos que estão calados agora, mas que eu levo para sempre comigo.
Ao sorriso de Lucile, aos cigarros de Carlos, às saias de Sílvia Aparício, aos abraços de Álvaro Pedreira, às loucuras de David Muri, à ingenuidade bonita de Pan Ai, às piadas de Beatriz, à coincidência de Ramalho. Jean e seus livros, Jean e seus adesivos, Jean e sua música experimental, Jean e seus filmes trashes, Jean projecionista, Jean e Grizet. Jean e seu casaco azul, seu jeito que não se esquece. Seu carro sempre aberto, seu discurso anarquista, aquele monte de coisas no macarrão. Seu jeito de falar, de comer, de olhar e de não olhar. Seu jeito de não olhar. Sílvia descendo a Rabassa, Síliva e seus aspargos. Síliva nas ruas, nos cafés, Sílvia andando em cima do corrimão. Todos os rostos que conheci, todas as coisas. Todas as ruas, todos os cafés, os bancos de praça, o sorriso de Lucile, David, Sílvia, Álvaro, Ramalho, Jean, Carlos, Grizet. Às linhas do trem, enfim.
CARTELA: Si le ves a alguien el aliento de esse modo es como se le vieras el alma, y, claro, cuando le vez el alma a alguien te enamoras. (Juan José Millás)
Quanto nos lembramos de um momento com o tempo?
Quanto nos lembramos das pessoas? Da primeira impressão, o feio que ficou bonito e o bonito que ficou feio. Uma ou outra coisa que ouvimos, é assim como guardamos as caras... sempre caladas.
Mas é incrível como reconhecemos uma expressão. A memória embaça, as caras perdem linhas e contornos, mas existe uma coisa que não tem nome, não tem forma. E a isso eu chamo expressão. Quando eu digo que não confio em retrato é porque o momento registrado é tão irreal quanto o tempo e (se o tempo não pára) como existe o momento? O problema do retrato é que ele não é correspondido. Quem tira a foto não sai no momento.
Eu gostaria de saber onde anda aquele sorriso agora.
E você, como você gostaria de conhecer alguém?
Postado por Pérola do Amaral
11.6.06
Sempre virá. Odeio quando te enganas assim, girando entre as panelas. A vida é agora, aprende. O pó se acumula todos os dias sobre as emoções. Estende a tua pata para o Outro, delicadamente. Cata os piolhos do Outro. Deixa que catem os teus. Esmaga entre os dentes, engole. Fala-me do gosto.
O gosto é bom, eu te dizia. E não impede a asa, a seta disparada em direção a Hydrus, Eridanus. Mas primeiro prova da terra. Depois, voa. Não aprendeste com Ícaro?
Caio Fernando Abreu
Postado por Pérola do Amaral
20.5.06
"essa é a história da borboleta que se apaixonou por um soco." [michel melamed]
essa é uma história de amor contada por fragmentos, porque só assim eu pude escrever nas melhores companhias.
antes de mais nada, o início
"e quando um rapaz e uma moça dessas se encontram, seja por um momento ou por horas, tanto faz, mas por algum motivo, não importa, eles não querer se separar." [caio fernando abreu]
antes de tudo, o sentimento
"este é o menino de sal,
o menino de sal que pesa no
meu coração
em quem tanto desejei pregar
asas de amor e de anjo" [caio]
com o desejo mais comum de todas as mulheres que vêem a vida passar em um beijo
"se nós dois se empareasse, se juntim nós dois vivesse" [cordel do fogo encantado]
porque não podem ler o pensamento do padre e dos pais
"perdoai a quem nos tem ofendido"
para o godard, nós sempre acabamos perdoando. para mim, não é perdão, mas esquecimento.
como amar na pobreza, na doença...
... e até mesmo na falta de amor.
hã?
como gostar de desenhar sapatos quando eles não dizem nada além de constatar a ausência de pés.
a pia que caiu. vai ver não era para pôr os pés.
o que eu escrevo não invalida o que eu sinto. e vice-versa.
e os trechos de unna femme est unne femme
"émile e ângela: tudo vai dar errado porque eles se amam.
quer que eu fique? sim.
quer que eu vá embora? sim.
está aqui há muito tempo? não, há 27 anos.
o presente é a posse que nenhum mal te tira.
tudo foi dito, até que mudem as palavras." [godard]
nunca prometer adorar a vida inteira.
ter paixão e ter pudor. hã?
"o amor é um contato livre, que se inicia com uma faísca e pode terminar do mesmo modo." [isabel allende]
"perdoe a minha precariedade e as minhas tentativas inábeis, desajeitadas, de segurar a maçã no escuro. me queira bem." [caio]
"estendo as mãos para o além, mas os entendê-las vejo que não é aquilo que quero aquilo que desejo" [fernando pessoa]
mas newton tinha razão, a maçã madura caiu.
the end.
Postado por Pérola do Amaral
16.5.06
MULHER
Ninguém me insiste. Ninguém me insiste e isso é a maior prova de que ninguém está interessado em mim, mas passa por mim com um interesse próprio.
CARLETA 3: Le grand finale.
FADE OUT
Postado por Pérola do Amaral
10.5.06
e dos casulos saem lindas najas raivosas e com fome...
eu odeio as borboletas da barriga. odeio essas borboletas estúpidas que me descem aos ovários e me sobem à garganta mas eu não posso vê-las porque só descem até as pernas ou sobem só até a boca e do corpo não saem. são muito parecidas com serpentes venenosas - o veneno é minha úlcera que cresce a cada dia desse amor de borboletas.
como eu ia dizendo, eu odeio todas essas serpentes bonitas. como é que eu sei que elas são assim, bonitas? ora: elas vêm sempre que meu coração vê alguma coisa que eu gosto muito. muito muito muito. aí elas vêm e sacodem tudo o que eu comi mais cedo. na verdade, elas também correm quando eu penso. e, quando adejam, roubam todos os meus sentimentos.
Postado por Pérola do Amaral
27.4.06
meus olhos pecam sempre. meu corpo peca às vezes. bom é quando tudo peca ao mesmo tempo.
Postado por Pérola do Amaral
15.4.06
"Só eu sei
O gosto a cor
Que me traz"
e também
"e quase sempre eu penso em te deixar e
é só você chegar pra eu me esquecer de mim"
Tim Maia
Passo do Guanxuma, 26 de junho de 1998.
Maria Helena,
Eu nunca mais pensaria em mim enquanto eu visse a sua cara calma e doce, típica de alguém tentando realizar o impossível. Então eu quis, sei lá, abraçar você, mas você não tinha tempo para abraços. E eu desejei que abrisse uma fenda no céu, daquelas com luzes no meio das nuvens, saindo raios de todos os lados, feito um prisma, e que você então fosse sugada para, sei lá, o paraíso. Mesmo sem tempo para os abraços.
Eu estou vendo o dia clarear daqui de cima e tem uma casa que ainda está na noite. Daqui a pouco todo esse céu vai ser trocado e tudo será dia. E talvez duas pessoas tenham o triste hábito de se abraçar no bom-dia.
Um beijo, gosto de você. Não a amo, porque se pode amar um time de futebol, mas jamais rolar com ele feito gatinhos.
A.
"aqui troco de mão e começo a ordenar o caos"
Ana C.
Postado por Pérola do Amaral
5.2.06
ME BEIJA assassina quieta bonita de touca de máscara rabo com brinco perfume cecê de roupa sem roupa sapato meia em pé na mesa com raiva sem pé pudor lágrima bala argola riso bafo unha grande roída na ponta dos pés chiclete calça comprida saia bundalelê hippie segurando um poodle falando num celular rosa com pressa devagar boca aberta fechada dentada, mas de batom melado NÃO.
Postado por Pérola do Amaral
29.1.06
SINOPSE
(RESUMINDO) Uma mulher e um palhaço discutem as possibilidades de estar só e em companhia.
CARTELA 2: Suas histórias não são especiais. Nada disso é frase feita. Você é que não pode enxergar pelos olhos dos outros. Vai tentando compreender a sua vidinha, até que um dia você vai, finalmente, chegar a um olhar comum, a um lugar. Onde a vida é óbvia demais.
CARTELA 3: Elvis está vivo numa ilha pornô.
Postado por Pérola do Amaral
25.1.06
"A estas horas minha imaginação se confunde com meus desejos, e meus desejos não têm medida. Seja mais concreto."
Patty Diphusa, Almodóvar.
Postado por Pérola do Amaral
18.1.06
Mirella, bonito nome. Você me parece loura. Te quero assim. Sabe, uma garota assim não se permite o ócio total, só o bruguês. O que lê, vai ao cinema e joga buraco. Mas o que mata, não. Inova. Até onde inventamos alguém? Os tímidos, doces armadilhas. Falar? . Olhar? Corriqueiros, corriqueiros. Uma aproximação? Só se for na marra, um contra-coxa na parede, ataque epilético no chão. Você é tímida, Mirella? Mas você não parece tímida. Você parece falar até demais. Falar até quando o momento não pede palavras. Então você se encarrega de todos os silêncios, desde o cômodo ao irremediável. Mas, Mirella, quem fala demais não perde momentos? Ou você não fala demais. Você é calada demais. E pensa em cada palavra antes de ser dita. Então fica em silêncio e finge que aquilo não incomoda você. Mas coça, não? O silêncio me coça. E se você não for demais? Mas pessoas divertidas costumam ser demais, e demais me lembra exagero. Sabe, Mirella, quando estamos a conhecer alguém, podemos separar o que é inventado do que é real? Não será que a gente especula demais sobre as coisas e pessoas? Você já tentou imaginar a casa de alguém e alguma vez acertou? Não para ver se pessoa é pobre ou rica, mas para saber se quando ela escreve no computador está vestida ou pelada, ou se quando ela fala com você ao telefone está sentada no chão ou na cama, na cadeira ou no sofá? Quantas perguntas, Mirella. Como você gostaria de conhecer alguém? Eu gostaria de estar chorando no metrô e que me estendessem a mão e me levassem ao paraíso. Sabe, Mirella, eu tenho medo: eu espero demais das pessoas. Espero que elas me estendam a mão e falem do paraíso. Espero pessoas incondicionais, embora não acredite em sentimentos incondicionais e ache que as pessoas estão tão vinculadas aos sentimentos que não existem mais sem eles, nada de homens das cavernas. Desde que descobriram o riso o mundo mudou e os dinossauros, com aquela boca bicuda e dentes grandes, fugiram porque, afinal, eles não conseguiam sorrir. E eu, no fundo, acredito no acaso. Mas os vencedores, teoricamente, não acreditam no acaso. Você acha, Mirella, que as pessoas são só egoísmo? Eu também não gostava de batata doce, mas o gosto da gente muda. Mas o gosto da gente muda. A opinião da gente muda. O querer e o poder são separados por presente futuro e passado? Quantas perguntas, Mirella. Mas não se assute, são todas retóricas, as perguntas. Você pode me dizer o mínimo ou o máximo e eu sempre vou inventar você. Teoria demais, Mirella. Então não me diz nada, apenas conta. Ou não conta. Mas fica com isto aqui porque eu acho bonito. E me assusta:
"[...]Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você, ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e, se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que, no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender[...]"
Caio Fernando de Abreu
Um beijo,
André.
Postado por Pérola do Amaral
13.1.06
André. André é teórico demais. Tem nome, documento e atestado de óbito pra quando morrer. André é um homem de ação, mais ação do que sentimento. Está sempre pensando, coisa que não pára nunca. É verdade que os pensamentos de André remetem sentimentos - grandes catarses -, mas André está geralmente balançando num ônibus, tem vergonha do que podem estar pensando e por isso não chora. Nem sorri. André pensa nos pensamentos dos outros e é natural que não tenha asas, apenas aquela cara de cidadão que não expressa nada além do fato de que aquele sujeito agüenta. André namora e pensa no casamento e nos três futuros filhos; dois meninos e uma moça, pra equilibrar. André é bonito e a conquista está em tudo. Se sai de casa, leva o arpão caso apareça um contra-filé mal passado, nunca se sabe. Amanhã tem sol?
A manhã teve sol. André saiu com pressa, não pensou no arpão. André está com sono e não está pensando. André encontra conhecidos e não os cumprimenta. Afinal, André não está pensando. Eles olham André feio, torto, mas André não os vê porque não está pensando. Agora André está sentindo, acima de todas as coisas, um sentimento que começa a aparecer como SONO. André esfrega o olho. Boceja. Está descabelado porque acordou dez pra hora de sair. Metrô. Nem viu o sol. Nem pensou no sol. O sono já se foi. André agora sente um desejo qualquer, é vaidoso. Chega ao trabalho, não cumprimenta ninguém e lembra do desejo qualquer. Percebe que não ama a namorada e agarra a secretária, fazem sexo como há três meses ele não fazia. Depois, André afrouxa a gravata e pede três pizzas de café da manhã. André ainda não está pensando. André se apaixona derradeiramente pela secretária, puxando a mulher pelo braço até saírem desajeitados dali. Mas André não é patrão e pede demissão; André quer sentir. Está cansado de pensar, cansado de dormir e dormir e não fazer sentido e não importar o sol e não importar o som; André quer ser levado dali. E levar. E levar a secretária e ser levado pelas pizzas e não pensar em filhos, ou se quiser que consuma seu desejo ali. Que fure a barriga da mulher, que nasçam logo os três diabinhos. E, se os quiser enforcar por estarem - é normal - berrado demais, que o faça. Que André não seja teórico demais, mas que também a prática não seja estúpida demais. Que deixe florescer da gosma verde e feia, de todas as digestões, que deixe florescer uma begônia. Ou uma tarântula. Uma naja. Uma andorinha. Que a alma nunca adoeça. E que André exista.
Agora André é uma não-coisa viva. Uma coisa viva, quero dizer, mas que precisa ser digerida para chegar na coisa. Dessa digestão, então, nascem as cobras, nascem as mãos, nasce uma vida. Nasce uma vida de verdade. E tudo isso por refletir o que há de mais verdadeiro em André: a alma. E a alma é a não-coisa, livre de julgamentos, é a gosma. Você come, se farta, digere, amolda e vomita. E vomita mesmo. Verdade, amarelo, verde, azul, uma calça Lee desbotada.
Postado por Pérola do Amaral
7.1.06
"Desculpa mas se eu não tocar você agora, vou perder toda a naturalidade, não conseguirei dizer mais nada, não tenho culpa, estou apenas sentindo sem controle, não me entenda mal, não me entenda bem, é só essa vontade quase simples de estender o braço para tocar você, faz tempo demais que estamos aqui conversando, já dissemos muito, dissemos tudo o que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação impressão ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e com a ponta dos meus dedos, tocar você, natural que seja assim: o toque, depois da compreensão que conquistamos. Não diz nada, apenas olha para mim, sorri. Faz pouco despencou uma estrela e fizemos, ao mesmo tempo, dois pedidos. Pedi para saber tocá-lo. Você não me conta seus desejos. Sorri com os olhos, com a mesma boca que mais tarde, um dia, depois daqui, poderá me dizer: não. Há uma espécie de heroísmo então quando estendo o braço, alongo as mãos, abro os dedos e brota. Toca. Perto da minha a boca se entreabre lenta, úmida, chiclete, vinho, vermelha, os dentes se chocam, leve ruído, as línguas se misturam. Naufrago em tua boca, esqueço, mastigo tua saliva, afundo, escuridão e umidade, calor rijo do teu corpo contra a minha coxa, calor rijo do meu corpo contra a tua coxa. Amanhã não sei, não sabemos".
(Caio F.)
Postado por Pérola do Amaral
4.1.06
dois textos muito antigos que pedem bis:
"e tudo o que ele dissesse sobre a verdade e sobre o bem e sobre o belo não significava mais para a maioria das pessoas do que uma rosa para uma vaca."
(h. andersen)
cansada dessas histórias fantásticas de sapatos e sombras, bem e mal, quando um se deixa inexistir para dar lugar ao outro.
vida: que pode ser triste, mas o triste é impossível. e tudo isso só porque o oposto deixou de existir quando da felicidade nasceu a tristeza e da tristeza, a felicidade.
nada no mundo teve mais nome quando a sombra comprou sapatos vermelhos de verniz; e nunca mais parou de dançar.
béguin.
para quem conhece a vaidade das flores que são lindas e hostis e esperam o momento do desabrochar mais belo só pra dar inveja na gente então saem dos botões pequenos e coloridos um monde de asas molengas que depois murcham vexadas porque elas são muito vaidosas mesmo e morrem bem feias mas só conheceu a beleza das gardênias quem não as viu assim.
Postado por Pérola do Amaral
25.12.05
boas notícias! agora eu também escrevo na literatura jovem deficitária com duas feras (alice, ismar). duas feras. especial de quem adora natal ;)
porque família, monamour, quando se reúne não sei para o que é, mas não é para o que parece ser.
dorinha era casada com armando que se enrabichava com verinha que estava cansada disso e tocava jorge ben.
- você fica aí atrás da cortina do boxe que eu saio de fininho.
- tudo isso, culpa sua.
- a gente precisava conversar.
- e adiantou?
- não adiantou porque você é complicado e depois que fica fugindo de mim e a dorinha me adora. hoje, ela me abraçou.
- hipocrisia...
- não sou. é que não gosto de ser antipática.
barulhos no corredor. movimento giratório da maçaneta. silêncio.
- armando...
- eu vou sair daqui. pela janela.
- mas armando...
armando mergulha os braços e alterna as nádegas para passar. depois dá um grito, ouve-se um barulho lá embaixo na grama e nada mais.
- ... eu te amo.
***
lolinha que era filha de dorinha e era bonita mas sozinha então estava toda pra lá em cima de betinho, filho de verinha.
- então eu disse pro meu professor que eu tinha tirado 9,5, e não 9,0. mas ele não fez nada aí a gente foi lá e mudou a pauta. mas ninguém descobriu.
então eu tô de férias, né. eu comprei um presente pra você hoje lá no shopping. deve estar embaixo da árvore. eu...
betinho era canalha até a alma e achava que o mundo era gentalha. queria pegar a prima, uma questão de fazer a coisa errada.
- vamos ali na varanda dar uma olhada na rua.
***
tia célia, 150 kg, nem preciso dizer que ficou pra titia. na cozinha, ao lado de edmundo, que amava noberto, fazia cinco anos de gay arrependido de não ter dado antes.
- então. eu só não posso comer banana e abacate. tenho tomado muita água. mas em dia especial a gente pode tudo, não é?
[edmundo: ai, noberto, você, no, meu, lençol-de-seda]
***
o resto. avó para morrer desde que todo mundo tinha nascido, alguns pivetes tomando sorvete no quarto com um vídeo game, armando é procurado, tios e tias sentados no sofá com seus relógios de ouro (branco para mulheres, amarelo, impressão, saiu de moda), unhas & cabelos. só lolinha matinha os cachos e de repente betinho veio com um bico e deu um estalinho bem na varanda [moro num país tropical abençoado por deus bonito por natureza mas que beleza], armando arrebentado lá embaixo, dorinha sem saber exatamente de onde começaria a gritar (do banheiro não; antes morto do que descoberta) e jorge ben é trocado por ney matogrosso.
Postado por Pérola do Amaral
14.11.05
te apresento a mulher mais discreta
do mundo: essa que tem de mortes, segredos.
essa que anda de salto fino para não gastar
as pontas dos pés.
essa que a gente ouve a pisada,
essa boa de gargalhada.
uma puta que não é puta porque é boa demais
e que chama toda atenção.
te apresento o homem mais indiscreto do mundo: o ladrão de galinhas. o literal ladrão de galinhas, que roubou a merilu. marilu, marilu, botava ovo pelo censura!
te apresento a galinha: louca, vendo tudo ao contrário.
e te apresento o pato; sobrou pra mim, sobrou pra mim.
Postado por Pérola do Amaral
6.11.05
"O amante seria inocente como o são os heróis de Sade. Infelizmente, seu sofrimento é normalmente aguilhoado por seu duplo, o Erro: tenho medo do outro 'mais de que de meu pai'."
(Roland Barthes, fragmentos de um discurso amoroso)
Postado por Pérola do Amaral
12.10.05
abandonar: ação derradeira em função de mudança. geralmente é seguida de alívio. ou desespero.
vida: qualquer coisa diferente de obrigação; "ah, isto é que é vida", dizem as pessoas quando estão de férias.
Postado por Pérola do Amaral
7.10.05
é legal que o amor apareça e desperte no momento certo.
nem muito antes, nem muito depois.
e não é legal que apareça antes e desperte muito depois.
ué, eu gosto de você, eu gosto de você, eu gosto de você, eu gosto.
o amor tinha chegado e assim tinha saído porque para um dos lados pareceu desimportante para o outro lado e agora era necessário repetir até mesmo o que não se vai fazer acreditar porque o lado que escuta encerou os ouvidos de todas as formas, um mecanismo de auto-proteção, e o lado que fala tardou demais para fazer uma grande descoberta. as pessoas gostam de reciprocidade, mesmo se adequando ao amor incondicional às vezes, é comum se escravizarem por amor. eu te amo porque te amo, é meu estado de alma e eu não peço nada por ele, amor é dado de graça, e eu conservo um certo ódio por isso.
Postado por Pérola do Amaral
28.9.05
* primeiramente, eu peço desculpas aos meus leitores pela demora de textos. o resto é obrigada.
eu sou motorista de ônibus, mas nunca paro pra pegar passageiro porque passageiro é problema.
outro dia, vejam só, entrou um homem. bonito, bem vestido até. chupando bala. dois minutos depois, eu quase atropelei uma dona. uma loira se jogou na frente do carro atordoada, sacudia o rosto de um lado pro outro, espantado os cabelos. o homem fez que não e escondeu a cara rapidinho.
- desce, AGORA!
mas ele não obedeceu. ela fez cara de bandido com sangue circulando nas veias, olhos esbugalhados e sobrancelhas abertas.
- ô motorista, não anda que eu tô subindo!
e espancou cada degrau com os pés. ela vestia uma saia e um sutiã de rendas. aquilo me agradou e por isso eu não andei com o carro, apesar de que aquela mulher não parecia ter amor à vida para sair da frente caso eu acelerasse. então ela ficou lá em cima, depois da roleta, com um maço de cigarros na mão e um isqueiro na outra. acendeu um cigarro, tragou e soprou bem na cara do homem. ele não pareceu confortável. ela tinha os olhos vermelhos quinem as unhas e não usava maquiagem. era uma mulher fodedora, eu pensei. a trocadora ria, acho que as mulheres são todas cúmplices umas das outras, não sei por que brigam tanto entre si. os outros passageiros estavam bufando e olhando para mim, mas enquanto houvesse uma mulher fodedora de sutiã de rendas em cima do meu ônibus eu não tinha motivos para andar.
- volta pra casa.
- vai pra casa pôr uma roupa. você está ridícula.
- pôr uma roupa é o caraleo! me explica por que você me largou.
(não explica, eu pensei)
mas ele não estava realmente disposto a explicar nada, já tinha outra mulher em alguma outra cama em qualquer outro lugar.
- não. é melhor assim. agora desce.
- foda-se! seu babaca! eu odeio tudo em você!
então ela me puxou.
- vem cá. olha, seu imbecil! qualquer homem é melhor do que você!
senti seu bafo ruim. ela me deu dois tapinhas, um em cada lado da cara. eu pensei em esbofeteá-la, mas então ela enfiou a língua áspera e morna dentro da minha boca e eu lembrei que ela trazia metade dos peitos pra fora e gostei.
o homem não demonstrou surpresa e puxou a minha mulher pelo braço até descerem, cambaleando, do carro.
eu fiquei buzinando, queria minha mulher de sutiã no meu ônibus de volta, eu a amava, mas ela havia passado dos limites. para ele, porque tinha me beijado e, para mim, porque não mostrou os peitos inteiros.
e comecei a andar.
Postado por Pérola do Amaral
3.9.05
"Só não saberás nunca que neste exato momento tens a beleza insuportável da coisa inteiramente viva. Como um trapezista que só repara na ausência da rede após o salto lançado, acendes o abajur do canto da sala depois de apagar a luz mais forte. E finalmente começas a falar."
(Caio Fernando Abreu)
ele chega, dança com ela e vai embora.
ela fica olhando para os sapatos.
ela fica odiando os sapatos.
ela pensa que não deve chorar por isso.
ela ajeita o cabelo.
ela quer, sim, chorar por isso.
ela ajeita o cabelo,
ela sabe o que quer.
oi.
faz tanto tempo, o que dizer que não pareça vazio?
nada não parece vazio
e tudo é ainda mais vazio - tempo
separador de semelhanças
as pessoas se perdem
até os irmãos se perdem
é, nosso espelho mudou
a gente escuta diferente,
eu não queria não dizer nada, eu juro que eu não fiquei vazia, assim,
de repente
tempo, falso senhor dos remédios
eu não quero mais estar aqui
eu estou aqui por um querer do passado
eu não quero estar aqui agora, eu quero sumir, fugir
a gente deixou a nossa magia escapar entre os dedos
chegar em casa, pés no sofá
a gente deixou tudo, tudo
o que tínhamos para estar aqui escapar entre os dedos
eu quero as paredes
sua boca, falta de companhia
eu disse que eu quero as paredes
me desculpa, eu não sei mais sentir.
o que ela quer é muito antigo. e o querer e o poder são separados por presente, futuro e passado.
Postado por Pérola do Amaral
2.9.05
é mãe, e por isso dela tira. dela tira até mesmo o novo; o impossível, ela pare de novo.
Postado por Pérola do Amaral
30.8.05
abaixo a cabeça,
você no meu café.
Postado por Pérola do Amaral
10.8.05
"A figura da mulher que passa suspende o tempo e o barulho ensurdecedor ao seu redor; por um instante o olhar se detém nas minúcias dessa figura feminina. O olhar retribuído, ainda que num relance, vai além e define a cumplicidade possível entre estranhos que se particularizam: eles sabem da fugida possibilidade de um reencontro: eles sabem o que deixaram de ganhar ao se submeterem ao acaso (Les fleurs du mal)"
(Londres e Paris no Século XIX)
Postado por Pérola do Amaral
20.7.05
"- É tarde, ele disse.
- Sim, é tarde, repetiu ela, meio boba.
Era quase madrugada e os dois só faziam repetir que era tarde olhando um pra cara do outro. Tinham que ir embora, mas essa era a primeira vez que se viam desde que namoraram há dois anos, quando foram completamente apaixonados. Agora, ficavam só naquele silêncio, agressivo
Ele quebrou:
- Tenho que ir.
E, em vez de se beijarem, trocaram tapas na cara. Foram embora felizes."
(tirado de www.soliloquio.blogger.com.br)
Postado por Pérola do Amaral
13.7.05
há dias na vida em que a gente senta e toma uma decisão.
senta e toma uma decisão.
senta, cai um piano em cima, e toma uma decisão.
ou cai um piano em cima, senta, e toma uma decisão.
e não importa se durou um segundo a decisão.
Postado por Pérola do Amaral
8.7.05
ela estava sempre dizendo que tinha que ir ali e sempre dizendo que doía aqui que ia morrer que tinha uma vida ruim eu estava sempre dizendo que ela é vesga assim aí ela inclinou pra janela fingiu pôs os pés em cima da janela mas ela ficava só
olhando pela a janela
eu não disse que você ia cair?
sinto a falta dela, aiai.
Postado por Pérola do Amaral
7.7.05
"si le ves a alguien el aliento de ese modo es como si le vieras el alma, y, claro, cuando le ves el alma a alguien te enamoras."
(juan josé millás)
esta história foi bonita para duas pessoas mas pra você vai ser
normal.
nem sempre eu gostei de retratos. retrato de gente, de movimento.
um retrato é falso,
tão falso quanto é o momento.
quanto lembramos das pessoas?
da primeira impressão, o feio que ficou bonito e o bonito que ficou feio,
uma ou outra coisa que ouvimos, é assim como guardamos as caras,
sempre caladas.
é incrível como reconhecemos uma expressão.
a memória embaça, as caras perdem linhas e contornos,
mas existe uma coisa que não tem nome, que não tem forma.
e a isso eu chamo expressão.
quando eu digo que eu nao confio em retrato, é porque
o momento registrado é tão irreal quanto o tempo,
e se o tempo nao pára como existe o momento?
o problema do retrato é que ele nao é correspondido;
quem tira a foto
não sai no momento.
Postado por Pérola do Amaral
28.6.05
confissao de um fumante viciado:
aí eu bati com o carro e decidi
hoje eu comeco a fumar.
e comprei um maço de carlton.
Postado por Pérola do Amaral
15.6.05
o pensamento é bonito, pisca o olho, feio.
incontrolavel, te trai.
Postado por Pérola do Amaral
5.6.05
Éloge de L'amour:
- de qual americano v. fala, américa do sul?
- dos estados unidos, claro.
- claro, mas os estados brasileiros sao unidos também.
no Brasil sao chamados brasileiros.
- nao, eu disse estados unidos da américa do norte.
- os estados unidos do México também sao da américa do norte, no entanto se chamam mexicanos.
no canadá também, sao os canadenses.
de que uniao de estados v. se refere?
- eu só disse: estados unidos do norte.
- bem, entao como é chamado um habitante dos estados unidos?
viu? v. nao tem um nome.
por J. Luc Godard.
Postado por Pérola do Amaral
31.5.05
e voce,
com quantos anos vai acabar a vida,
se render?
a gente pensa que é um só,
mas enquanto aqui chove eu te peco
nao pensa
e do outro lado está um dia estupendo,
faz sol.
Postado por Pérola do Amaral
25.5.05
"civilizada me pergunto se o seu destino trai um desejo por cima de todos os outros"
(ana c.)
Postado por Pérola do Amaral
31.3.05
quatro trechos nada haver.
quando a alma feminina se cansa, o espelho balança
o corpo dança e as orelhas ganham brincos.
como eu costumo dizer que chico me disse: põe a mesa no chão e o chão tá posto.
outra coisa, minha roseira é imaginária, aqui na janela tem vidro. rosa que é rosa, só em livro.
mas comprei uma luminária.
eu não fiz nada pra você gostar de mim.
Postado por Pérola do Amaral
27.3.05
mas aí a gente acorda na segunda e está tudo igual, tudo está igual.
Postado por Pérola do Amaral
20.3.05
não era um sorriso de frente nem era um sorriso de lado dizia o presente livre de futuro e passado não tinha história não devia explicações: era impunemente doce e leve como coisa que se repete sem evoluir, alguém sorri do outro lado da explicação
surge o impulso.
Postado por Pérola do Amaral
15.3.05
"a menina tinha os seus quatro anos e, para passar o tempo, encostou-se no vidro do balcão-vitrina e ficou olhando para o meu rosto barbado. disse-lhe que ela era a menina mais bonita que eu tinha visto hoje. ela moveu a cabeça, concordando. perguntei-lhe quantos namorados tinha. apontou para mim dois dedos estendidos. 'dois!', disse eu. 'é uma porção de namorados, não é? como se chamam eles, meu bem?' ela respondeu, numa voz penetrante: 'bobby e dorothy'."
(franny e zooey, de salinger)
quando se esclarece o impossível, amar pode ser um inferno.
jaime, jaime, jaime, como é que você foi casar com laurinha, com aquelas perninhas? não vai dar certo.
- mande um beijo pra ela, viu?
como a gente trai o pensamento às vezes.
jaime, jaime, jaime, que tal ser amado em silêncio?
- leve um pedaço pra ela.
jaime, jaime, jaime, me pergunto se a sua bunda continua branca como um dia eu espiei...
- venha mais vezes!
... a gente só tinha nove anos.
uma vez, você pôs uma flor na minha mão para eu segurar e sorri, era minha. em seguida, tirou-a de mim. então percebi que ela jamais havia sido minha; foi aquele o dia mais triste de toda a minha vida, mais triste do que quando vovó morreu, mais triste ainda do que seu casamento e seus filhos horrendos.
outra vez, éramos crianças ainda, eu me maquilava só pra ser admirada e fui até você, que me perguntou rindo onde era o circo.
agora, se pudesse ler minha mente: são 35 anos, jaime.
compreendo que a nossa chance acabou nesta vida.
Postado por Pérola do Amaral
11.3.05
o sol invade a cama
ela abre pouco os olhos,
sobrolho enrugado
e um sorriso de lado.
e quando a paz parece muita, berra, toca, o telefone; alô.
no vazio da conversa, o fio chega na cozinha. uma mão no telefone, outra num pote de biscoitos; oi? distraí por um instante, não ouvi.
- sabe, boas lembranças são doces pedaços de vida. é preciso um momento. um pequeno momento, quase inexistente.
mesmo que real ou criado, mas pequeno,
que é para não caberem imperfeições.
tem até vezes que a gente inventa só para ter do que lembrar depois.
quem nunca viveu de uma história?
- olha, tem um bicho enorme na minha cozinha e eu preciso matá-lo. ligo depois.
então sentou no chão e comeu distraidamente todos os biscoitos.
depois inclinou bem o pote e engoliu todos os farelos.
telefone na mão, fora do gancho, implorando um empurrão.
Postado por Pérola do Amaral
8.3.05
eu poderia parar cada sinal para dançar na rua, você não gostaria
de fazer um padê burrê e desaparecer?
Postado por Pérola do Amaral
3.3.05
"o que quer dizer, diz.
só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse
um dia, vai ser feliz."
(Paulo Leminski)
Postado por Pérola do Amaral
22.2.05
só falta a brisa.
é, cada um escolhe uma tecla pra bater em cima. quando tentamos fugir disso, voltamos a isso e só assim é possível escrever. mas se a vida cabe em mim
já não preciso retornar ao mesmo lugar, infelizmente.
eu queria estar vazando para todos os lados e procurar um divisor de águas de papel.
estou plena, e quero vazar. mas ao vazar logo rezo por sossego.
qual é o truque do desassossego?
Postado por Pérola do Amaral
16.2.05
- nasceu!
- huéééé...
- quer segurar seu irmãozinho?
***
- hi, mãe, desculpa...
escorregou!
Postado por Pérola do Amaral
14.2.05
"O céu, quando entra em mim, o vento não faz, voar, esses
papéis."
(ana cristina cesar)
Postado por Pérola do Amaral
7.2.05
nos reencontramos, mas tempo não é sinônimo de conserto, pelo contrário, se a espera é longa demais mata um futuro, assim como o que não é bem pensado pode matar: esperar é pensar demais. talvez existam pessoas que realmente nasceram para esperar outras e assim imagino que suportem o tempo, os grandes amores; mas se duas pessoas que nasceram para fazer esperar esperam, então o tempo mata a coisa roubada e não há sequer um fim, o que existe é uma interrupção.
até que adiantem os relógios.
Postado por Pérola do Amaral
1.2.05
digo pouca coisa, penso nelas como fáceis
pra mim são indizíveis, acho que existem palavras que não são bem palavras
se não podem ser ditas nem escritas então penso que não são palavras
às vezes eu misturo sentimentos com palavras, mas quando escrevo o que sinto não passam de palavras
interpretáveis palavras.
sentimentos são inócuos às palavras, eu descobri.
Postado por Pérola do Amaral
30.1.05
- e agora, maria?
- já não posso saber seu paradeiro
sumiu como um suspiro faz cinco anos que eu virei uma madalena arrependida e fiz promessa pra deus de não cortar os meus cabelos
agora eu sou feia e só queria aparar essas pontas no barbeiro ao lado da padaria, mas fiz promessa pra esse amor que rima com a dor de ser patético que mais de 350.000 só brasileiros já escreveram para seus ditos amantes
eu só me esqueci que era preciso saber o telefone; que os santos não tinham sequer o endereço. e que promessa não era um achados e perdidos, eu não ascendi vela porque não acreditava nessas coisas.
- então toma o cartão do cabeleireiro.
Postado por Pérola do Amaral
26.1.05
"- onde está o carteiro de sempre?
- dona, POR FAVOR, como posso saber? eu estou aqui e ele está em algum outro lugar!"
(charles bukowski, em cartas na rua)
Postado por Pérola do Amaral