30.8.04
a dança
quando eu me apaixonei, foi de longe, e foi pela saia dela. rodava com uma leveza impressionante, a saia. os pés estavam descalços, imundos na terra. as mãos, apoiadas em outras mãos, desapareciam. eu quis ser aquelas mãos - pura vaidade, mas não sabia dar um passo, e jamais me renderia ao fracasso na frente dela - moça dançarina. quando cheguei em casa, abri as listas amarelas e procurei por aulas de dança. eu estava disposto a fazê-las por ela. e fiz. em um mês já estava dançando. me custaram caro, as aulas. não só dinheiro, mas tempo, e eu pensava em música os dias inteiros. era uma desgraça, mas aprendi. então, algo de mágico me aconteceu: ela, eu não queria mais. eu estava dançando tão bem, que ela: eu não queria mais. e não queria nem ela, nem ninguém. descobri que fiz isso por mim, porque à noite, em casa, eu colocava uma música bem alto e dançava sozinho. até o vizinho reclamar. um dia eu vou chamá-lo para dançar comigo, e dançaremos uma noite inteira. no fundo, talvez eu tenha feito isso por ele, e não por ela, nem por mim.
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28.8.04
parte I
o encontro
primeiro foi o chaveiro, pra dentro da bolsa.
depois foram bolsa, sapato e celular.
estavam todos saindo pra jantar. tinha cinzeiro - então podia fumar!
ninguém olhou pro relógio,
porque ninguém era o ser esperado, nem o que faria esperar.
comeram.
parte II
a orgia
depois - no quarto - se olhavam. o sapato, pela fresta do armário, contemplava a bolsa, que o traía em segredo com a chave e com o chaveiro.
o celular, da cômoda, observava tudo.
Postado por Pérola do Amaral
27.8.04
patrícia sentou na janela; ana, no corredor. o céu movia-se denso e cada vez mais lento. os relógios marcavam meio-dia, e a paz dos passageiros era interrompida por ambulantes ganhando a vida - é caneta, lapiseira e borracha, um real, é caneta, lapiseira e borracha, um real.
patrícia, presa em problemas - a chave de casa esquecida no trabalho, o documento perdido.
ana lia, sempre calada. nunca tivera outra opção.
um moço gordo entrou no exato momento de uma freagem, balançando suas banhas pra trás. as meninas se juntaram num instante de riso. o gordo ajeitou a maleta nos braços, sujou a mão com o suor da testa e suspirou, aliviado. as meninas, ainda contendo risinhos, voltaram a pensar em suas particularidades cotidianas.
pontos depois, o gordo pretendeu saltar. só não parecia saber onde. achou melhor perguntar a alguém. patrícia olhava para a janela, parecia já estar na calçada. ana, ainda no livro. e sobrava.
o gordo foi bem direto e rápido, mas ana se desesperou: tentou abrir os lábios, depois usou as mãos. então fechou os olhos, respirou, e repetiu pausadamente todos os gestos.
o gordo conteve a irritação, mas não pôde fingir que havia entendido aquele bando de mãos.
patrícia deteve os olhos na menina. sentiu raiva do gordo e, atormentada com a fragilidade da nova amiga, respondeu que não, que é daqui a dois pontos, moço.
e o gordo sorriu, feliz e satisfeito.
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26.8.04
"Estendo as mãos para o além, mas ao entendê-las já vejo
Que não é aquilo que quero aquilo que desejo..."
(Fernando Pessoa)
um sorriso
nem sempre sorri.
não são como bundas,
os sorrisos.
podem ser serenos
ou desesperados.
podem mostrar os dentes
ou acabar nos lábios.
o fim de um amor é assim:
sorriso que morre
nuns lábios de cetim.
batom morto por guardanapo
de bar.
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24.8.04
"Dá um certo trabalho tirar síntese numa palavra só, esta: gosto."
(Caio Fernando Abreu)
falar: irrevogável soco na boca do estômago.
as palavras são um desespero: você jamais poderá adivinhar como o outro irá interpretar.
na madrugada
enquanto divagava em mim
eu, sombra
era pensamento, não pele.
e depois
com um pêlo esquecido no colchão
eu te tirava da minha vida
arrastando a sujeira
com a mão.
no dia seguinte
já não era mais quinta
e eu trocava o lençol.
Postado por Pérola do Amaral
22.8.04
A Valsa
Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas...
- Eu vi!...
Valsavas:
- Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
P'ra outro
Não eu!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas...
- Eu vi!...
Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem ?!
Quem dera
Que sintas
As dores
De arnores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas,..
- Eu vi!...
Calado,
Sózinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!
Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues
Não mintas...
- Eu vi!
Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida.
No chão!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas...
Eu vi!
(Caimiro de Abreu)
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20.8.04
"'Ser tolerante é tolerar tudo?', não, pelo menos se quisermos que a tolerância seja uma virtude. Mas, embora a resposta só possa ser negativa, a argumentação não deixa de colocar um monte de problemas, que são de definições e de limites."
(André Comte-Sponville)
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19.8.04
"São tudo histórias, menino. A história que está sendo contada, cada um a transforma em outra, na história que quiser. Escolha, entre todas elas, aquela que seu coração mais gostar, e persiga-a até o fim do mundo. Mesmo que ninguém compreenda, como se fosse um combate. Um bom combate, o melhor de todos, o único que vale a pena. O resto é engano, meu filho, é perdição."
(Caio Fernando Abreu, em Dulce Veiga)
marcinha era moça direita - só usava saia depois dos joelhos e cabelos presos, com muitas presilhas na frente. óculos de intelectual, com lentes para muitos graus.
não namorava. nem poderia, porque namorar não é coisa que se faça sozinho.
marcinha lia e escrevia. cantar alto era o seu maior pecado, ela dizia
sou donzela assustada
num cotidiano sem fim.
da escova de dentes
ao cheiro quente:
é tudo todo dia igual
pra mim.
seria uma história bem clichê se marcinha se rebelasse, soltasse os cabelos e saísse dando por aí. mas eu vou deixar assim mesmo: marcinha pura, intelectual e torta.
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18.8.04
espera. tumulto de angústia suscitado pela espera do ser amado, no decorrer de mínimos atrasos.
a espera é um encantamento: recebi ordem de não me mexer.
na calçada da rua. no chão limpo de tão suja que eu estava camuflada na sujeira dele. eu esperava. pálida, tímida, calada. quis pôr asas em um monte de formiguinhas e achatar uns elefantes que passavam ali, mas só consegui dobrar algumas nuvens para apoiar a cabeça. eu havia almoçado e jantado o alecrim que tinha atrás da cerca. estava farta de qualquer mato, queria jasmim.
de repente, a boca que eu esperava chegou. estava suja de amora, pintada, vermelha. trazia dois olhos arregalados embaixo, que me despertavam uma incrível sensação de cansaço.
a gente dormiu na calçada mesmo, com os pés pra fora do meio-fio. um raio riscou o céu negro daquela noite.
amanhã eu procuraria jasmins.
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17.8.04
"Algumas vezes, aos domingos, eu saio de manhãzinha para caçar nos arredores da cidade. Levo as fuzis. Mas nunca os cartuchos. Eu teria muito medo de matar um bicho. Gosto de observá-los, desentocá-los, vê-los fugir. Não quero correr o risco de feri-los." Luis Buñuel
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14.8.04
"Enquanto o dourado se desfaz tão rápido que, se você piscar, num segundo ele já não está mais ali, e enquanto você se pergunta mas como? ou para onde foi? porque o roxo quase negro tomou toda a superfície da nuvem e, ela mesma, além da nova cor, já ganhou também outra forma súbita e inteiramente diversa. Assim ele se tornaria. Por enquanto, não, por enquanto eu tinha apenas uma sensação de dourado.
[...]
Ele sorriu para mim e perguntou:
- Você vai para a Liberdade?
- Não, eu vou para o Paraíso.
Ele sentou-se ao meu lado. E disse.
- Então eu vou com você."
(Caio Fernando Abreu, em Dulce Veiga)
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13.8.04
a menina olhou o calendário e sorriu, toda maliciosa. estava tudo pronto para o dia de hoje: sexta-feira treze, ela grunhia num sorriso maléfico e dizia
ô manhê, comprou os pirulitos?
a casa estava cheia. tinha bala pra dar e vender dentro duns saquinhos de brinde. tinha fantasias também, todas assustadoras.
ô manhê, cadê os pirulitos?
não sei.
mas todo mundo só bate nas portas de quem tem pirulitos!
e como eles vão saber disso, filha?
eu fico com fama lá fora!
a noite começou. a mãe entrou no quarto e fechou a porta, angustiada com o barulho da campainha. mas tinha comprado tampões, e pôde ter uma noite de sono sossegada. dormiu.
as crianças do bairro estavam inquietas, corriam de casa em casa berrando
doce ou travessura?
doce ou travessura?, perguntou-lhe uma máscara com olhos sangrentos e saltitantes.
peraí que eu vou pegar o doce, ordenou a menina, com a calma de quem abre bem os olhos pra falar.
peraí, menina. está vendo aquela carruagem? - havia uma abóbora imensa lá fora, que parecia ser de verdade - o que você me diz de passear nela?
tá, mas peraí que eu vou pegar o doce!, gritou a menina, já impaciente e um tanto nervosa. afinal, seria seu primeiro passeio numa abóbora. correu para dentro da casa, puxou um saquinho preso no corrimão da escada e voltou, toda sorridente. entrou na abóbora que, para a dúvida dos leitores, era de verdade, e foi se desfazendo aos poucos em um monte de estrelhinhas, até sumir por completo, dizem as crianças daquele bairro. mas ninguém acredita em contos cinderelescos hoje em dia.
Postado por Pérola do Amaral
12.8.04
eu queria apresentar uma pessoa fantástica a vocês. ela estava com medos. medo de ninguém ler, de ninguém gostar. falem pra ela, é normal. ela é muito minha amiga, e eu adoro lê-la. espero que gostem também!
ah, antes que eu me esqueça:
nina borges
"nunca se sabia ao certo quando as coisas paravam de parecer divertidas e começavam a tornar-se patéticas, folclóricas ou vagamente ameaçadoras."
(Caio Fernando Abreu)
prepare o seu coração
pras coisas que eu vou falar...
eu devia tá triste, mas consigo sorrir
agora
preciso transformar lembranças
em cartões postais.
nem sei como começar, foi tanto tempo...
é como dar um livro velho, uma coleção.
ou jogar fora uma calcinha sem elástico -
[ já faz parte de você.
Postado por Pérola do Amaral
10.8.04
estava na farmácia comprando xampu quando tudo começou. ieda buscava sempre variar a marca, experimentar novidades. na dúvida, era atraída pela embalagem. porém, havia muitas moças segurando um xampu de mesma marca - semprebela - e ieda sentiu-se persuadida, necessitando levar o mesmo xampu que as outras carregavam felizes em suas sacolas.
quando saiu do banho, ieda estava loira, um cabelo que não combinava com uma mulher de 91 anos. andava na rua ouvindo comentários do tipo
olhe que fashion aquela senhora: loira!
ou
que tal pintarmos o cabelo daquela cor?
foi só dias depois que percebeu a ironia dos comentários, quando uma jovem o fez rindo de sua cara e apontando para os aloirados cabelos de ieda. o mundo desmoronou para a pobre nova xuxa, que deixou de ser fã em um ímpeto, passando a odiar de monroe a carla perez - todos os tons da cor.
foi nessa mesma semana que ieda descobriu que bush não era bonzinho, quando não saiu do espelho durante o bombardeiro que passava na tevê.
ieda estava fraca, destruída, sentindo-se uma criancinha perdida numa sala de pedagogos.
ieda precisava de suporte, mas o marido havia morrido há anos, e o cão praquilo não servia porque era cego, ela pensava, e por isso não ria.
a solução foi comprar outro xampu.
novamente, lá estava ieda na farmácia, persuadindo-se com o próprio inconsciente, que a fez comprar dessa vez uma outra marca - cheirobom - que pelo menos a metade das mulheres bonitas da farmácia levava nas mãos.
ieda saiu do banho. estava ruiva. deu um grito de horror.
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9.8.04
ela me beijou. na boca. foi assim que, de repente, eu senti o cheiro do xampu de framboesa. parecia minha pasta de dente, mas era gostoso, me trouxe paz.
a gente tava embaixo duma marquise. tinha um bando de gente em volta. fazíamos um casal estranho, porque eu era muito magro e ela tinha uns braços e pernas enormes, que me envolviam todo, e não sobrava nem cabelo meu.
quando a chuva parou, ela ainda tava me beijando, e não tinha mais ninguém em volta. eu pensei que queria que durasse pra sempre, mas ela foi me levando embora e entrou em casa. morava num sobradinho perto dali, todo descascando.
eu me senti usado no dia seguinte. bati na porta dela, e uma gorda que eu nunca tinha visto abriu uma fresta.
oi, a dora está?
mudou - cuspindo migalhas.
não deixou endereço?
não. nem telefone.
me senti injustiçado.
eu só fui saber que ela mudou pra tratar da doença meses depois. dora estava ficando cega.
quando completei 30 anos, ela me achou. já não enxergava mais. não tinha remédio pra ela naquela época.
e me beijou. na boca. de repente, eu senti de novo o cheio do xampu dela. era framboesa. tinha algumas na minha geladeira.
Postado por Pérola do Amaral
8.8.04
beatriz da silva carvalho júnior era um bebê que não dormia. a mãe cantava, dançava, lia, e nada. bibi não dormia. continuava toda arregalada. aí, cansada, a mãe grunhia
ai, caralho!
e bibi nada. a safada até ria.
todas as noites - a mãe cansada
ai, caralho!
e bibi nada.
até que um dia - a mãe cansada
ai, caralho!
ai, caiaio!
e bibi falou a sua primeira palavra.
Postado por Pérola do Amaral
5.8.04
elas passavam o dia naquela merda. contando carneirinhos, certamente nus. o primeiro que entrasse porta-dentro certamente também seria imaginado nu. que cena. não faziam nada. morriam na monotonia da profissão, pensando que antes tivessem escolhido a medicina, cirurgias, martelar narizes. fazer algo mais bruto, que exigisse destruição física. ali, consumiam insanidade mental em doses homeopáticas - em breve remédios tarja preta fariam parte das prateleiras do banheiro. moravam juntas, trabalhavam juntas, faziam tudo juntas. só não cagavam juntas. também não faziam sexo juntas, morreriam de nojo antes. mas acordavam juntas e dormiam juntas. não falavam juntas, tampouco falavam. inteligentíssimas, todas as duas. mas não abriam a boca pro que não fosse comestível. no máximo, uma ligava pra outra avisando que chegaria mais tarde. até que um dia uma não ligou. a outra estranhou, nunca acontecera antes. mas não se importou, sequer abriu a boca pra telefonar. esperou o dia seguinte, mas no dia seguinte ela também não estava lá. estranhou, mas dessa vez abriu a boca quando levou os dedos ao bocejar. à noite, o telefone tocou. a outra tinha morrido de susto no meio da rua
- foi o acontecimento do dia anterior, disse-lhe a outra voz da linha.
não caiu lágrima do rosto da uma, que ouvia calada. desligou o telefone e dormiu.
Postado por Pérola do Amaral
4.8.04
chego em casa ainda cedo, hora do almoço. a comida de sempre, nunca muda. acho que se um dia mudar eu vomito tudo. o barulho dos talheres me irrita. a goela alheia me irrita. levanto da mesa com o prato ainda por terminar, deito na cama e abro um livro. porra, a história não sai do lugar. como um doce. penso que seja doce, e lembro do caio. sorrio. pego o telefone, mas desisto.
a vida é tão vazia às vezes.
Postado por Pérola do Amaral
3.8.04
"A felicidade é tão oposta à vida que, estando nela, a gente esquece que vive. Depois quando acaba, dure pouco, dure muito, fica apenas aquela impressão do segundo."
(Mario de Andrade, em Amar, Verbo Intransitivo)
eu, sozinha como só a vida há de propor
(já que tudo acaba em solidão),
parece até fácil escrever algumas linhas.
eu aqui, pateta parada,
bebendo ice tea
e odiando cada vez mais chá preto
(fui enganada pela imagem ilusória dum limão aberto desenhado na lata),
mas não jogo meu dinheiro fora,
portanto, bebo.
papel voou -
- retomo a folha branca
meia preenchida.
o vento que gela machucou a folha destes versos brancos.
eu tive vergonha das minhas palavras e fui correndo buscá-las.
enquanto espero nessa mesa de pingue-pongue,
sentada, daqui os outros parecem bonecos de vidas fáceis.
e não são?
garanto que são poucos que usam a cabeça pra doer no coração.
Postado por Pérola do Amaral