fotografia (filme): Coração Selvagem, David Lynch.
30.11.04

comunicação.
a janela bate. barulho.
"hi, vai chover!"
"estou limpando."
"e daí?"
"e daí que não vai chover."
silêncio. veja. janela, veja, pano no vidro da janela. brilho, fedor de veja. vizinho na outra janela fechando a janela, a menina imaginou a cena que não podia ver.
"você não ouviu o barulho?"
"que barulho?"
"a janela, meu deus! onde você está com a cabeça?"
"a janela bateu porque eu estou limpando os vidros!"
.
.
.

Postado por Pérola do Amaral

28.11.04

- meu nome é lampião porque as moças daqui tinham tudo medo do escuro e me chamavam pra dormir com elas. eu ia, é claro, porque a minha cama era na palha e coçava demais a noite inteira. além disso, fedia a bicho, tem sempre muito bicho em volta de mim. então antes de sair eu passava era muito sabão e fazia era muita espuma pra soprar pro céu, mas elas caíam era tudo no chão. depois eu deitava bem do lado das moças, um pouco acanhado, e elas diziam , ai, cheiro bom. tô pensando em trocar de nome, acho que o medo do escuro passou. elas têm medo agora é do cheiro das fronhas. e nos quartos delas tem luz. sempre teve. elas que não sabem.

Postado por Pérola do Amaral

27.11.04

sábado, dia qualquer. a diferença? todos os moradores se encontram em casa.

"hum, que preguiça". o gordo lê jornal porcamente. prefere as fotografias. o garotão vinte anos assiste à televisão do gordo, vinte e quatro horas ligada. derrama cerveja na barriga da menina que faz abdominais embaixo.
"ei, você de novo!"
a senhora cozinha, dia de jogo e almoço de família, comida dobrada.
são duas horas. a chica volta da rua com o cachorro. entra em casa atropelada.
"cuidado, bolinha!"
"esse cachorro! devia ser proibida a entrada de animais neste prédio!"
"sh, silêncio. assim não se escuta a tevê, porra!"
"hum, que falatório. mas eu que não saio desse sofá. mais tarde eu pego outra cerveja..."
"desculpe, senhora, mas o meu cãozinho tem que passear. a senhora não passeia?"

Postado por Pérola do Amaral

24.11.04

eu sou diferente, mulher sofisticada. não guardo lixo embaixo da cama. caixa de papelão, jacaré, bola de vôlei, nada.
tem é um homem gostosão, século XXII já: pelado e musculoso.

Postado por Pérola do Amaral

23.11.04

"e tudo o que ele dissesse sobre a verdade e sobre o bem e sobre o belo não significava mais para a maioria das pessoas do que uma rosa para uma vaca."
(h. andersen)

cansada dessas histórias fantásticas de sapatos e sombras, bem e mal, quando um se deixa inexistir para dar lugar ao outro.
vida: que pode ser triste, mas o triste é impossível. e tudo isso só porque o oposto deixou de existir quando da felicidade nasceu a tristeza e da tristeza, a felicidade.
nada no mundo teve mais nome quando a sombra comprou sapatos vermelhos de verniz; e nunca mais parou de dançar.

ao querido mario cezar,
você escreve porque sim. não existe melhor resposta. é, porque sim. e se disserem que está incompleta, então você pergunta cadê deus e o diabo nessa terra normal? tão normal que eu posso ver as rachaduras do nordeste, e sentir o perfume francês das mulheres do sudeste.

Postado por Pérola do Amaral

21.11.04

só assim para me ouvir. só assim que eu seguro ela com força até rasgar e amoldo-a na estante em frente para não tombar. depois danço e continuo a vida para então me virar e dizer
- só me olhando, ahm?
e achar o ridículo vivo dentro de mim, pôr a vergonha de volta no baú, onde ficam as coisas a serem lembradas - lugar perfeito para uma foto antiga que nunca vai parar de me sorrir, não vai ficar velha. hoje, a diferença é pouca entre mim e ela, por isso ainda estou enamorada. ela, sempre satisfeita, presa numa juventude eterna. quase viva. daí a nostalgia por um sorriso preso e tão falso como são os dirigidos a um fotógrafo. mas eu ainda prefiro acreditar na verdade que ele desperta em mim, o sorriso.
- perdeu alguma coisa?

Postado por Pérola do Amaral

19.11.04

"[...]
Eles se mexiam agitados, rindo, a sua família. E ela era a mãe de todos. E se de repente não se ergueu, como um morto se levanta devagar e obriga mudez e terror aos vivos, a aniversariante ficou mais dura na cadeira, e mais alta. Ela era a mãe de todos. E como a presilha a sufocasse, ela era a mãe de todos e, impotente à cadeira, desprezava-os. E olhava-os piscando. Todos aqueles seus filhos e netos e bisnetos que não passavam de carne de seu joelho, pensou de repente como se cuspisse. Rodrigo, o neto de sete anos, era o único a ser a carne de seu coração, Rodrigo, com aquela carinha dura, viril e despenteada. Cadê Rodrigo? Rodrigo com olhar sonolento e intumescido naquela cabecinha ardente, confusa. Aquele seria um homem. Mas, piscando, ela olhava os outros, a aniversariante. Oh o desprezo pela vida que falhava. Como?! como tendo sido tão forte pudera dar á luz aqueles seres opacos, com braços moles e rostos ansiosos? Ela, a forte, que casara em hora e tempo devidos com um bom homem a quem, obediente e independente, ela respeitara; a quem respeitara e que lhe fizera filhos e lhe pagara os partos e lhe honrara os resguardos. O tronco fora bom. Mas dera aqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera ela dar à luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade? O rancor roncava no seu peito vazio. Uns comunistas, era o que eram; uns comunistas. Olhou-os com sua cólera de velha. Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Incoercível, virou a cabeça e com força insuspeita cuspiu no chão."
(clarice lispector, em feliz aniversário)

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17.11.04

o menino não tava nem aí porque a vida parecia tão eterna que mais um dia de tédio não traria solidão.

Postado por Pérola do Amaral

16.11.04

"não, não, ele não esqueceu da mocinha, mas devia tê-la esquecido [...], vamos deixar de poesia."
(rubem fonseca)

quando criança deve ter querido matar um gato recém-nascido só pra saber como funciona a outra vida.

Postado por Pérola do Amaral

15.11.04

"Quem é você?
Adivinhe, se gosta de mim
Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:
Quem é você, diga logo
Que eu quero saber o seu jogo
[...]
Deixe o dia raiar
Que hoje eu sou
Da maneira que você me quer"
(chico buarque)

quebre como quiser.

acho alguém que invento alguém que me inventa hoje eu posso ser quem quiser e o que for de todos os tipos que na verdade eu não sou.

acho alguém que invento alguém que me inventa.
hoje eu posso ser quem quiser e o que for
de todos os tipos que na verdade eu não sou.

acho alguém quê.
invento alguém que me inventa.
hoje eu posso ser quem quiser.
e o que for de todos os tipos quê.
na verdade eu não sou.

acho alguém que invento.
alguém que me inventa hoje.
eu posso ser quem quiser e o que for de todos os tipos que na verdade eu não.
sou.

... etc e tal.

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12.11.04

o verdadeiro romântico.

"agora você é minha mulher, e isso é suficiente para fazer-me odiá-la. mas se você fosse a mulher de algum outro, isso seria suficiente para fazer com que eu a amasse."
(lord byron declarara à esposa)

Postado por Pérola do Amaral

11.11.04

"Mas também creio que chorava porque, através da música, adivinhava talvez que havia outros modos de sentir, havia existências mais delicadas e até com um certo luxo de alma."
(Macabéa)
então: eu já disse que ela chorava, né?
não ela - a macabéa -, porque ela é personagem do rodrigo, que é o narrador de "a hora da estrela" (da clarice lispector).
bem que eu queria estar falando daquela magrela, mas estava mais pra capitu, porque era bem roliça a madame que eu vou narrar em cinco linhas.
pois chorava porque perdeu amor. todo mundo chora quando perde amor, mesmo quando é grito de aleluia. chorava e soluçava e parecia que era só pra alguém chegar mais perto e dizer que está tudo bem, fincar os dedos nos ombros, fixar os olhos nas suas redondas amêndoas e dar um último suspiro (comprido) como garantia do prometido.
mas a moça chorava tão e tão isolada, que até apagada ficava, esquecida no mundo. na verdade, assim como macabéa, ela nem existia. só porque não se sabia existente. e chorava, mas a única música que ouvia era a curva do horizonte, o vento fazendo a curva.
mas não era reto?
não teima, é redondo. e faz curva lá no final; enfim, não interessa. interessa que de um lado ou do outro vai dar em curva.

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10.11.04

é com a delicadeza dos dedos que destruo o inimigo mortal. sei da sua falta de amizade apenas porque quer matar-me. eu não o odeio, nem jamais poderia conservar tal sentimento por um robô de guerra movido pela obrigação.
sei de todos os seus passos e permito-me recuar para virar-me para outros inimigos que surgem tamém, títeres e cheios da mesma vontade de ver meu sangue jorrar.
eis que em um ato de desagradecimento ressurge como uma fênix pulando e me cedendo espaço para um segredo - um de seus esconderijos - o soldado que antes eu permiti que vivesse, mas agora eu o aniquilo com um tiro previamente mirado (eu disse que sabia seus passos) no lado esquerdo do crânio.
segundos antes, percebo nele um olhar de leveza, e logo entendo que ele não me odeia também e não me quer mal. sinto pena; e da pena já não sei mais de olho, já não sei mais de suporto essa tela que não mais me atrai. mas, como eu já disse e repito uma terceira e última vez: sei de todos os seus passos, o que me torna obrigado a atirar, porque nós, a realidade, não devemos ter medo nem piedade da ficção.

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9.11.04

ele tinha prometido mais que tudo no mundo e ela tinha acreditado só porque se era tudo no mundo então não sobrava espaço pro não, mas no fundo ela sabia que era só mais um dizer desses dizeres que podem até sair do coração ou do fundo da alma da gente, mas que nunca passam de apenas um não. não vai acontecer. vai ficar uma esperança funda e comprida bem viva até morrer, se morrer.

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7.11.04

pois que agora eu só vou falar dum tombo.
é, ontem eu tava andando nos tacos sem fim e aí caí. foi só isso. pronto: não falei de amor, de dor e nem de machucado, porque eu caí e não pinguei uma gota de sangue.
depois eu mandei botarem carpete. justo eu, que tinha horror àquela coisa brega. então eu espirrava e era até harmônico, mas não tombava mais, não. era de uma melodia só que parecia até assovio de bicho.
o chão ficou molhado quinem um mangue (era verde o carpete). onde eu metia os pés o danado do chão puxava até a canela, mas também não machucava. era uma merda duma poça que eu deixei do primeiro tombo sem primogênito, eu achava, até começar a atolar os pés. ficou uma poça de vergonha metida mesmo, o troféu da vexação pra essa minha cara de madame maljeitosa.

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5.11.04

se eu fosse um bem - te - vi, eu ficaria na sua janela toda desimportada da calcinha que você usa nem aí, e eu levaria pólen pra nunca deixar de fazer florir uma pétala, dessas de desfolhar nas suas mãos um bem - me - quer, mesmo que você nunca saiba que fui eu quem a plantou, mesmo que todas murchem com o vento, ou que encharquem com as chuvas. mesmo que todas essas palavras sejam clichês o suficiente para fazerem juntas o sentido único das palavras que falam de amor, porque eu vou falar de amor - é inveitável e universal, tamanho único, sentimento inexorável para o mundo - mesmo pelas metáforas mais batidas, ah, eu vou falar de amor. mesmo se eu não for um bem -te - vi em outra vida.

Postado por Pérola do Amaral

3.11.04

[...]
o amor era só o amar,
como essas duas mãos que se dão e se vão num estalo de estar.

[pedacinho do texto que eu fiz com a luiza vereza]

Postado por Pérola do Amaral

1.11.04

quando eu era pequena, me deram "o pequeno príncipe nas mãos". foi uma espanhola verdadeira, dessas que batem castalhonas nas mangas rodando saias geralmente vermelhas, ou pretas; ou vermelhas e pretas.
seu nome era dollores, sonoro e meio brega, metido nas castanholas de adulto (porque eu não sei se sabes, mas existem as pequeninas, perfeitas para crianças. costumam ser de plástico, bem vagabundas e quase não produzem som).
assim era dollores, mulher de muito escândalos e sangue quente, a bruxa do sétimo andar (garanto que tinha uma lagartixa morando com ela).
com o passar dos anos, sumiu da minha vida, como coisa não cativada some. imagine só: cativar uma espanhola.
mas, se os ventos soprarem um navio espanhol e ele vier por acaso ancorar no porto do rio (ela costumava cantar em navios), eu darei um sorriso a ela por esta graça:
"tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. e eu não tenho necessidade de ti. e tu não tens necessidade de mim. não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro."

Postado por Pérola do Amaral





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