fotografia (filme): Coração Selvagem, David Lynch.
30.12.04

"o que mais me aborrecia era que à primeira vista as pessoas geralmente me consideravam bom, bondoso, generoso, leal, fiel.
talvez eu possuísse essas virtudes, mas, se assim fosse, era por ser indiferente.
podia dar-me ao luxo de ser bom, bondoso, generoso, leal e tudo o mais, porque era desprovido de inveja.
inveja era uma coisa de que nunca fora vítima. nunca invejara pessoa alguma ou coisa alguma. pelo contrário, eu só havia sentido piedade por todos e por tudo."
(henry miller)

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27.12.04

"até no capim vagabundo há desejo de sol."
(C. Lispector)

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19.12.04

marianinha foi se fechando, foi se fechando, foi se fechando
até se sentir bem encolhidinha; é possível abraçar o corpo todo, mamãe!
então trovejava.
e mais um rasgo no céu e menos marianinha restava na terra.
de repente ela virou uma bolinha tão miudinha de medo, que a mosca abriu a boca e comeu.
quando o maior ovo do mundo estrelou no céu,
a mãe (que dormia em rasos lençóis) estendeu bem os braços ao espreguiçar e quase matou marianinha, mas a mosca subiu para o teto e ficou a olhar navios.

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18.12.04

eu estou apaixonada. quero sentar no lugar dele, ocupar sua existência - sou ciumenta, mas não diria possessiva porque não posso comprar uma pessoa como se compra um casa, uma bijuteria barata de esquina, embora também se possa achar pessoas em esquinas - foi assim que eu o encontrei, virando uma esquina. pode não parecer especial dizendo assim, mas por ter sido em uma ponta de rua que me fez acreditar que era aquele o melhor dos momentos. não sei se me encontro apaixonada porque não devo me conceder essa dor, ou porque há tempo surgiu em mim um desejo qualquer, solto e de livre arbítrio. talvez o desejo tenha se abrigado em mim, talvez tenha se escondido nele e eu preciso achá-lo a qualquer custo, pois quanto vale um desejo, um milhão? o valor de um desejo - e é uma enorme petulância minha dizer assim, defini-lo - pode até ser um milhão, mas vale o tempo que se gasta rojando atrás dele. e as roupas sujas impossíveis de se lavar.

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17.12.04

se faço torto é porque cansei:
a vida é só e apenas isso?

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15.12.04

pesavam na coluna os noventa anos de dona dulce e, de repente, ouvia-se um estalo - pec - e a mulher grunhia. eram assim os dias (perpétuos rituais), mas a ninguém incomodavam; ah, faz tantos anos que todos partiram.
era como se cada fio branco de cabelo aparecesse para cada coisa perdida, para cada memória esquecida; e lá se vai a vida, que horas são?
então escurecia, como todos os dias. e dona dulce esticava bem os lençóis e morria. morria toda noite só pensando em acordar diferente, em se livrar daqueles noventa anos mal vividos, ou abandonar o corpo (já tão frágil, já tão cheio de marcas) para imaginar campos de trigo, sol sem calor, chuva sem miseráveis embaixo da janela; feliz natal, suspira dona dulce à pequena araucária sem bola, sem fita, sem nada.
- minha pequena araucária...

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14.12.04

"tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar pois o próximo instante é o desconhecido."
(Clarice Lispector)

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11.12.04

passou na feira, mordeu a maçã.
isso mancha, mãe?
ninguém respondeu.
era segunda-feira, dia de feira,
sujeira na roupa, muito sabão pra limpar.
e o pecado era exatamente este:
quando a criança não é mais criança
pergunta se a roupa vai manchar.

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9.12.04

- sua peste! eu nunca mais quero ver você por aqui, me entendeu?
mas ele era tão pequenininho, mas tão pequenininho, que não entendia palavras grandes como nunca. tinha dez anos e isso era o máximo que conhecia. como só lembrava dos últimos dois, achava um dia muito e também achava que o nunca durava assim, mais ou menos um dia.
- você por aqui de novo?
- eu só queria saber.
- se eu uso calcinha?
- não. como é que prendia aí embaixo. mas agora eu sei que é solto. e não voa, não?
- se bate vento, voa. só isso?
- não. e quanto tempo dura o nunca?
- sempre.
então ele nunca mais saiu de lá porque
[ se o nunca durava um dia ]
o sempre nem chegava a ser.

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8.12.04

"- Good morning, Mrs. Dixon! I'm the cleaner!
- What? The killer?
- Not yet, Lady, not yet. Only the cleaner..."

(Caio Fernando Abreu, em London, London)

pow-pow.
"good morning, mrs. dixon! i'm the killer!"
"what? the cleaner?"
"not yet, lady, not yet."
(para douglas, pow-pow)

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5.12.04

passo por um incômodo irremediável.
sento e levanto; olho e empurro; acalmo e desespero.
de repente eu paraliso; esqueci-me da vida!
em seguida espanto-me com o que não posso tocar nem olhar; de onde vem?
de nada adianta corrigir uma ação com outra esquecida.
descubro que é incômodo de alma. é incondicional.

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2.12.04

- serviço de atendimento ao consumidor, em que podemos ajudá-lo?
- a minha família.
- o número, por favor.
- 1234.
- um minuto, por favor. sim?
- a minha família quebrou.
- todos os membros ou apenas um em particular?
- todos os membros.
- quando você pressiona o chip, aparece alguma mensagem?
- dá erro número 121.
- em todos os componentes?
- em todos os componentes.
- um minuto, por favor. erro 121. o que está acontecendo com a sua família?
- resolveram brigar.
- briga. sim. e... o motivo da briga foi qual?
- foi no jantar. meu pai não deixou meu irmão mais novo passar o sal para minha mãe porque dá azar.
- azar. sim. e depois disso o que aconteceu?
- a minha mãe se levantou e pegou o sal. então ficaram todos em silêncio e depois começaram a cuspir a comida no prato.
- inclusive os seus avós?
- sim, foi cuspideira coletiva.
- e você?
- eu saí da mesa. e então, tem conserto?
- seu erro foi computadorizado. estaremos enviando um técnico dentro de 24 horas. qualquer informação entre em contado conosco, a sos desfamiliarizados agradece sua ligação.

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1.12.04

vai ver eu tenho um cofre de moedas perdidas
e nem sei.

eu queria dizer pra maria que aquele jeito dela desengonçado não era feio.
era até muito charmoso você cheia de coisas, alguns objetos achatados embaixo de outros, parecia cabide.
escrava do inútil carregava sempre tudo errado. se nada quebrava, trazia o conserto.
eu queria saber por onde anda, se continua toda distraída.
eu comprei uma bolsa pra você. tão bonita. paetês e tudo. mas eu nunca entreguei a tal da bolsa.
sempre achei que você preferiria estar enrolada nas coisas só pra pedir
"me ajuda?"

pensando bem, a maria nem existe mais. não aquela.
talvez já tenha até alguém no lugar da maria, eu que nem percebi.
eu que nem percebi só porque ainda acreditava nela, podia estar por aí esbarrando nas coisas quem sabe um dia então assim distraída não esbarrara em mim?
confesso que comprei este apartamento no andar da família de maria, mas ela nunca visitou ninguém, nem pra ganhar presente de natal.
eu tinha colocado um anúncio no jornal para vender. depois liguei pro corretor eu mesmo e reservei. paguei caríssimo pra tê-la de volta.
ela, que nunca mais me apareceu.

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