![]() 30.1.05
- e agora, maria?
26.1.05
"- onde está o carteiro de sempre?
20.1.05
não vamos cair no desconsolo, já que de tudo merecemos um pouco. o que incomoda agora é a gente ter sempre dois destinos, ou uma válvula de escape. o que desespera agora é o ontem mal resolvido, é a lembrança não apagada - a boneca precisa ser dada se quiser crescer.
15.1.05
ônibus 123. um homem entra revoltado com a própria pobreza. olhos cheios, a boca desvairada aponta; quer berrar. eu o observo tímida, sou a única pessoa daquele assalto que o observa. tudo porque são todos vítimas e cúmplices da mesma espécie de sujeira - a humildade sobrevivendo a pão e água. meu coração palpita como uma flor de calçada, o verde rompendo o cinza, o vermelho das máscaras de kabuqui. de repente (não sei se felizmente ou infelizmente) o homem me olha e, em um ato de extrema defesa, me escolhe para morrer: a minha humildade andava bem vestida, não viva de migalhas.
14.1.05
uma bonita ingenuidade de expressão comovente... talvez um dia lhe chegue a felicidade. acredita no futuro, vive nele. quase não pensa no presente: não conhece o real porque constrói o amanhã, mas amanhã já não vive.
13.1.05
Você me olha e você me entende.
10.1.05
"Mas às vezes pouso os olhos em você, que está de costas, e não
9.1.05
se eu dissesse que meu primeiro contato com a morte foi uma mariposa, eu estaria mentindo. na verdade a morte nunca me importou, eu só lembro do primeiro contato que tive com o amor. ele me seqüestrava para trás de um caixote, e éramos tão pequenos que cabíamos inteiros escondidos ali. juntos, ocupávamos um espaço menor do que o de uma pessoa. digamos assim que éramos meia gente, mas nos comportávamos como o mundo inteiro, ou como o que víamos dele nas novelas. chegando no local almejado, fazíamos o proibido - dávamos as mãos. eu aprendia coisas como frases feitas e aprendia que às vezes era preciso ficar sem fala ou deixar o outro assim apenas para dar um ar de importância à cena. então eu dizia coisas como "não podemos mais ficar juntos" sem dispor de razão e, quando ele me fazia uma pergunta sobre a minha pergunta, eu não sabia o que dizer e dava sempre a mesma resposta
8.1.05
espelho.
7.1.05
foi porque eu não esperava. eu podia ter olhado mais detalhadamente para as coisas e pessoas e então nada teria acontecido. qualquer aproximação eu não senti, porque estava tão centrada desdenhado memórias, que não enxergaria mais além ou, no caso do que acabou acontecendo, à frente. o outro sentou-se ao meu lado e esperou que eu iniciasse uma comunicação, mas eu estava inábil - quando já era preciso cuidar das palavras e pensamentos para não desviar do controle designado a mim pelo momento. o outro quis dizer qualquer coisa reparadora, mas calou num bolo seco que desceu pela garganta até os pés. ficamos mudos por tanto cuidar das palavras, e doentes de um silêncio sem solução; ah, havia tanto a ser dito e a calar! existíamos tanto que nos incomodávamos. a existência do outro me era tão incômoda quanto a minha se fazia em sua presença, guardando bem tímida um breve suspiro que se falasse nada diria, apenas expressaria um pedaço de vida e saudade morta, só porque o tempo passa e o viver da gente muda e se amolda e acaba perdendo a forma antiga; aquela velha e boa forma antiga... dizer alguma coisa não podia ser mais um dizer bobo e belo e impulsivo como era antigamente (,) porque hoje parecia inútil falar do céu. o outro, pois, levantou-se e foi embora, tomar molde de outras coisas; ou falar do céu.
5.1.05
"lágrimas nos olhos de cortar cebola, você é tão bonita"
3.1.05
tem uma mulher do outro lado do bar me olhando com uma cara meio esquisita. ou ela vai me matar, ou vai me amar, as mulheres têm dessas coisas. uma água sem gás, dois gelos no copo. eu tenho algum dinheiro, nada que valha um seqüestro ou um capítulo de novela. nada que eu possa usar para fazer um filme, ou investir em um banco. eu nem sirvo para patrocínio, ué. a mulher levanta e vem vindo; vejo o corpo inteiro e vem vindo; os sapatos são pretos e vem vindo. não usa saia vulgar. pensando bem, ela vai me matar.
família.
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