fotografia (filme): Coração Selvagem, David Lynch.
30.1.05

- e agora, maria?

- já não posso saber seu paradeiro

sumiu como um suspiro faz cinco anos que eu virei uma madalena arrependida e fiz promessa pra deus de não cortar os meus cabelos

agora eu sou feia e só queria aparar essas pontas no barbeiro ao lado da padaria, mas fiz promessa pra esse amor que rima com a dor de ser patético que mais de 350.000 só brasileiros já escreveram para seus ditos amantes

eu só me esqueci que era preciso saber o telefone; que os santos não tinham sequer o endereço. e que promessa não era um achados e perdidos, eu não ascendi vela porque não acreditava nessas coisas.

- então toma o cartão do cabeleireiro.

Postado por Pérola do Amaral

26.1.05

"- onde está o carteiro de sempre?
- dona, POR FAVOR, como posso saber? eu estou aqui e ele está em algum outro lugar!"
(charles bukowski, em cartas na rua)

Postado por Pérola do Amaral

20.1.05

não vamos cair no desconsolo, já que de tudo merecemos um pouco. o que incomoda agora é a gente ter sempre dois destinos, ou uma válvula de escape. o que desespera agora é o ontem mal resolvido, é a lembrança não apagada - a boneca precisa ser dada se quiser crescer.
- e aí, já decidiu?
- decidi.
e isso tudo só porque tomar decisões é muito complicado: o certo dói um vez, mas o errado dói para sempre.
e jogou a loirinha sem braço no saco de coisas para dar.

Postado por Pérola do Amaral

15.1.05

ônibus 123. um homem entra revoltado com a própria pobreza. olhos cheios, a boca desvairada aponta; quer berrar. eu o observo tímida, sou a única pessoa daquele assalto que o observa. tudo porque são todos vítimas e cúmplices da mesma espécie de sujeira - a humildade sobrevivendo a pão e água. meu coração palpita como uma flor de calçada, o verde rompendo o cinza, o vermelho das máscaras de kabuqui. de repente (não sei se felizmente ou infelizmente) o homem me olha e, em um ato de extrema defesa, me escolhe para morrer: a minha humildade andava bem vestida, não viva de migalhas.
a culpa não era minha, a culpa nunca foi minha. mas as vítimas também são as culpadas.

Postado por Pérola do Amaral

14.1.05

uma bonita ingenuidade de expressão comovente... talvez um dia lhe chegue a felicidade. acredita no futuro, vive nele. quase não pensa no presente: não conhece o real porque constrói o amanhã, mas amanhã já não vive.
talvez se realize assim, eu gosto de pensar só para me enganar e achar um jeito de não sentir mais pena: este sentimento de superioridade.

Postado por Pérola do Amaral

13.1.05

Você me olha e você me entende.
Pronto. Pronto. Pronto.
Já não posso falar.

Despe-te dos pudores
Nua na ventania
"Você quer ir embora?
Então vai"
Versos pernetas
Palavras espancadas
Hematomas
"Como é que seria
dormir te ouvindo falar?"
(versos da minha pequena Li.
Li, desculpe te invadir assim)

Postado por Pérola do Amaral

10.1.05

"Mas às vezes pouso os olhos em você, que está de costas, e não
te toco, com discriminação.
[...]
Há qualquer coisa de perverso no jeito em que a gente diz -
[não é nada, não é nada."

(Ana Cristina Cesar)

Postado por Pérola do Amaral

9.1.05

se eu dissesse que meu primeiro contato com a morte foi uma mariposa, eu estaria mentindo. na verdade a morte nunca me importou, eu só lembro do primeiro contato que tive com o amor. ele me seqüestrava para trás de um caixote, e éramos tão pequenos que cabíamos inteiros escondidos ali. juntos, ocupávamos um espaço menor do que o de uma pessoa. digamos assim que éramos meia gente, mas nos comportávamos como o mundo inteiro, ou como o que víamos dele nas novelas. chegando no local almejado, fazíamos o proibido - dávamos as mãos. eu aprendia coisas como frases feitas e aprendia que às vezes era preciso ficar sem fala ou deixar o outro assim apenas para dar um ar de importância à cena. então eu dizia coisas como "não podemos mais ficar juntos" sem dispor de razão e, quando ele me fazia uma pergunta sobre a minha pergunta, eu não sabia o que dizer e dava sempre a mesma resposta
"porque temos cinco anos".
como nem tudo são flores, também aprendi que é realmente impossível amar e ser feliz ao mesmo tempo (me disse nelson rodrigues três anos atrás). como? ah, ele tinha cinco namoradas (sem contar comigo, é claro), e levava todas para o mesmo esconderijo.
mas só na adolescência que eu fui descobrir isso, uns dez anos depois.
- ele fazia isso com você também?
- durante as aulas de pintura com o dedo.
se eu tivesse descoberto antes... teria grudado muito chiclete no cabelo dele!

Postado por Pérola do Amaral

8.1.05

espelho.

se eu fosse sido um bêbado... cantava: a minha desgraça é som de praça
todos querem ouvir
para terem pena por serem também assim
sem-graça
comentando, cochichando
"isso é triste"
se perguntando, se achando
em mim
se escondendo, com medo
todos sentem é por si
e fogem como lobisomens no fim
penso: se eu fosse um bêbado... a minha desgraça estaria ecoando pela praça.

Postado por Pérola do Amaral

7.1.05

foi porque eu não esperava. eu podia ter olhado mais detalhadamente para as coisas e pessoas e então nada teria acontecido. qualquer aproximação eu não senti, porque estava tão centrada desdenhado memórias, que não enxergaria mais além ou, no caso do que acabou acontecendo, à frente. o outro sentou-se ao meu lado e esperou que eu iniciasse uma comunicação, mas eu estava inábil - quando já era preciso cuidar das palavras e pensamentos para não desviar do controle designado a mim pelo momento. o outro quis dizer qualquer coisa reparadora, mas calou num bolo seco que desceu pela garganta até os pés. ficamos mudos por tanto cuidar das palavras, e doentes de um silêncio sem solução; ah, havia tanto a ser dito e a calar! existíamos tanto que nos incomodávamos. a existência do outro me era tão incômoda quanto a minha se fazia em sua presença, guardando bem tímida um breve suspiro que se falasse nada diria, apenas expressaria um pedaço de vida e saudade morta, só porque o tempo passa e o viver da gente muda e se amolda e acaba perdendo a forma antiga; aquela velha e boa forma antiga... dizer alguma coisa não podia ser mais um dizer bobo e belo e impulsivo como era antigamente (,) porque hoje parecia inútil falar do céu. o outro, pois, levantou-se e foi embora, tomar molde de outras coisas; ou falar do céu.

Postado por Pérola do Amaral

5.1.05

"lágrimas nos olhos de cortar cebola, você é tão bonita"
(Caetano)

Postado por Pérola do Amaral

3.1.05

tem uma mulher do outro lado do bar me olhando com uma cara meio esquisita. ou ela vai me matar, ou vai me amar, as mulheres têm dessas coisas. uma água sem gás, dois gelos no copo. eu tenho algum dinheiro, nada que valha um seqüestro ou um capítulo de novela. nada que eu possa usar para fazer um filme, ou investir em um banco. eu nem sirvo para patrocínio, ué. a mulher levanta e vem vindo; vejo o corpo inteiro e vem vindo; os sapatos são pretos e vem vindo. não usa saia vulgar. pensando bem, ela vai me matar.
diálogo verdadeiro:
- nos conhecemos de algum lugar?
- do maternal.
diálogo possível, mas inventado:
- nos conhecemos de algum lugar?
- nossa, como você ficou gostosa!
diálogo verdadeiro:
- tem fogo?
- sim, aqui está.
diálogo possível, mas inventado:
- onde fica sua casa?
- logo ali.

Postado por Pérola do Amaral

família.
era uma vez um menino que se chamava bartolomeu e sofria porque era pobre e tinha muitos irmãos então começou a trabalhar cedo e pensou que não desejava aquilo para ninguém pois que teve um filho e de repente se viu obrigando o menino a passar por tudo o que passou e sorriu de satisfação.

Postado por Pérola do Amaral





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